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Chouyaku Hyakunin Isshu: Uta Koi

Hoje eu quero falar sobre um dos animês mais bonitos desta terrível temporada de inverno: Chouyaku Hyakunin Isshu: Uta Koi, uma interpretação de alguns dos poemas mais famosos do Japão.

Chouyaku Hyakunin Isshu no Blog YUME

     Embora a forma poética japonesa mais conhecida no ocidente seja o haiku (aqueles poemas de 17 sílabas), poucos sabem que este originou-se de uma ainda mais antiga, embora ainda famosa, forma poética: o waka, que tem sido usado por mais de mil anos antes do haiku. Eles eram usados para comemorar ocasiões especiais e ainda são, visto que a Família Imperial Japonesa ainda tem um concurso de poesia anual no Japão. O waka é mais para escrever as emoções humanas do que para explica-las, sendo este um conceito fundamentalmente diferente da poesia ocidental. Deste lado do globo a poesia busca entender o 'por quê que eu sinto', enquanto a do oriente, se especializa no 'o que eu sinto'. Infelizmente, tais poemas são de difícil tradução para o português uma vez que a poesia japonesa desenvolve-se de forma diferente da de língua portuguesa.

     No período retratado no animê a poesia era especialmente importante no cortejo e nos affairs. Mas não apenas nisso: a habilidade que uma pessoa tinha em fazer versos era um dos critérios mais importantes para determinar sua posição na sociedade. Os waka, eram, portanto, um quesito essencial na corte. Nem um movimento literário do ocidente teve jamais uma importância tão forte quanto o waka teve no Japão.

     Este animê parte-se de uma interpretação diferenciada do Ogura Hyakunin Isshu. Ou seja, embora ofereça um background suficiente para entender os poetas, não deve ser levado em consideração didática. Este clássico japonês, o Ogura Hyakunin Isshu, consiste em uma coletânea de 100 poemas escritos por 100 poetas diferentes, compilados no período Heian. Para a adaptação, apenas alguns poemas de amor foram selecionados.

O período Heian é a última divisão da história clássica japonesa, indo de 794 a 1185. O período recebeu o nome da capital da época, Heian-kyo, a atual Kyoto. Foi o período da história japonesa no qual o budismo, o taoísmo e outras influências chinesas atingiram o seu máximo. O período Heian também é considerado o pico da corte imperial japonesa e é marcado por sua arte, especialmente poesia e literatura. Este é considerado um ponto alto da cultura japonesa que as gerações posteriores sempre admiraram. Essa época também foi marcada pela ascensão da classe samurai, que mais tarde tomou o poder e começou o período feudal no Japão.

O animê

     Os casos amorosos que deram origem aos tão bonitos poemas de amor são contados de forma singela ao longo dos doze episódios. São marcados por diferenças sociais e diferenças pessoais. O homem é de posição mais baixa que a mulher (ou o contrário) ou algum dos dois já está comprometido. Poucos são os casais felizes e muitos os corações partidos.

     Todos os poemas mencionados são explicados perfeitamente, e você não pode parar de desejar saber japonês para entende-los melhor. Eu, como amante de poesia, adorei os fatores que levaram o destino a lançar este animê que parece ser a continuação espiritual de Chihayafuru. Não é necessário que o espectador tenha alguma noção sobre poesia, ou sobre o período histórico: a série já deixa bem claro.

     São pequenas e rápidas histórias com profundo teor emocional. É triste ver como os casos não vão para frente por conta das diferenças sociais ou o pensamento da época. É particularmente facinante o retrato de todas as mulheres da série. Numa época tão machista, é interessante pensar como as mulheres, mesmo tão esmagadas, participavam da nata dos escritores da época.

     Uta Koi mostra diversas personalidades japonesas, imperadores, cortesãos, damas de honra, pessoas que queriam subir na vida. Não se limita apenas aos poetas de Ogura Hyakunin Isshu, mostrando outras personalidades da época, como Sei Shonagon, a autora do Livro do Travesseiro que conta a vida na corte daquela época, e, até, Murasaki Shikibu, a autora do primeiro romance do mundo, publicado há 1000 anos, o Genji Monotagari. Uma curiosidade é que o primeiro romance do mundo fala principalmente da força das mulheres naquela sociedade tão machista. Murasaki escreveu quando estava inconformada pela posição de sua melhor amiga de infância como dona de casa de uma marido ruim e infiel. Amiga esta, que, era também a sua paixão.

     A arte é diferente das que estão rodando no mercado. Com traços grossos e palhetas planas, o design dos personagens pode ser difícil para se acostumar no começo, mas no mais tardar, até o segundo capítulo você começa a achar que não poderiam ter escolhido um traço melhor. A trilha sonora não guarda nada de impressionante, sendo o melhor da sonoplastia a música de abertura da série.

     Conhecer os poetas e seus poemas é certamente facinante. Ainda mais depois de ter assistido  Chihayafuru já que os poemas inscritos nas cartas do Karuta, são justamente poemas do "Hyakunin Isshu" (se você ainda não viu Chihayafuru, aí está outra dica). Entretanto, o enredo poderia ser mais forte. É claro que devemos considerar que a curta duração da série traz limitações, visto que o animê retrata toda a história de um movimento literário, desde seu começo até o fim de seu período de glória.





     Seria muito bom se tivesse mais tempo e nós pudessemos conhecer mais certos personagens. Como não tem, você deve ficar de olho na história pois os episódios não estão lançados de forma cronológica. Mas não se preocupe: não é difícil. O ponto fraco na questão, é que é complicado lembrar as características de todos os personagens, já que eles aparecem por pouco tempo (salvo alguns três ou quatro que são mencionados muitas vezes) e alguns são bem parecidos.

     O que o diretor pecou foi na tentativa de introduzir humor ao animê e aliviar a tensão: além das cenas de humor não funcionarem (ficaram horríveis as introduções aos episódios) o que a gente quer ver no josei é tensão (LOL).

     Apesar dos defeitos, a série continua valendo muito a pena. Numa temporada tão fraca, não é engano afirmar que Chouyaku Hyakunin Isshu: Uta Koi é possivelmente o melhor título do momento. E continuaria sendo uma opção forte em qualquer outra estação do ano. Não apenas para aqueles que gostam de josei ou gostam de poesia ou querem conhecer mais sobre a cultura japonesa, mas também para todos que estão cansados dos lixos consumistas que estão jogando sobre nós ultimamente.

     Acredito que por conta de seu tema Uta Koi não atrairá atenção por aqui ou mesmo pelo Japão. O que é realmente uma pena.


  • É clichê?

"É claro que é clichê, Harry. Mas por que não seria bonito?"
-Dumbledore



Um josei histórico e elegante, o melhor desta temporada.


>> Se você quiser entender melhor os poemas visite o One Thousand Summers, eles tem explicações maravilhosas, com direito ao poema direto em japonês, transcrições, menções aos animes Chihayafuru e Uta Koi e explicações: é ótimo! 

1 Comentário:

Eru ru disse...

Ótimo artigo!

Eu, enquanto assistia Chihayafuru, procurava uma tradução dos cem poemas, tão fascinado fiquei com as amostras do anime.

Sem resultados na pesquisa e contendo o desejo de conhecer os poemas melhor, fiquei muito surpreso quando surgiu essa série.

Estou agora saboreando cada episódio devagar, e fiquei feliz de já encontrar um artigo tão bom sobre.

Parabéns. ^^

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